Entrevista com Margarida Montenegro – Directora da Cultura da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Na apresentação desta exposição lê-se que estamos perante um documento que andou perdido. Que história há na história deste álbum?

O denominado Álbum Weale teve uma história acidentada desde o Paço da Ribeira ao Brasil — para onde seguiu aquando do transporte da biblioteca e arquivos que acompanharam a família real —, e ao mercado antiquário londrino, onde surgiu nos anos de 1840, nas mãos de John Weale, conhecido editorde arte.

Foi John Weale que, fascinado pela beleza dos desenhos, pela primeira vez o deu a conhecer, publicando-o parcialmente, em 1843 e 1845, facilitando, assim, o seu reconhecimento pela historiografia.

Em Londres foi comprado pelo arquitecto Joseph-Michel Lesoufache, sendo, em 1889 integrado na Biblioteca da École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris por doação do referido arquitecto, juntamente com a sua biblioteca, onde é guardado na secção de iconografia.

Em meados de Dezembro de 1995, foi ocasionalmente localizado nesta Biblioteca pela investigadora Anne-Lise Desmas quando estava a fazer uma tese sobre um escultor francês que trabalhou para a capela de São João Baptista, dando-se esta extraordinária coincidência: quando o álbum foi posto em cima da mesa está, naquele momento, sentado ao seu lado o investigador holandês Peter Fuhring, especialista em desenhos e estampas e em artes decorativas, que trabalhou muito as encomendas francesas no tempo de D. João V e que acreditava na existência do álbum. Imediatamente contacta Marie Thérèse Mandroux França a informá-la da sua descoberta, que, por sua vez, lhe dedica um texto, publicado na revista “Colóquio-Artes” em 1996, onde é pela primeira vez valorizado este importante documento para a historiografia da arte portuguesa.

Para além do resgate, houve também todo um trabalho de restauro. Estava em muito mau estado e quanto tempo demorou a chegar ao arranjo final?

O volume estava em razoável estado de conservação porque permaneceu mais de cem anos conservado num depósito de uma biblioteca sem qualquer manuseamento; os desenhos encontravam-se em melhor estado do que a encadernação que lhe foi apensa já no século XIX. (c. 1820).

A intervenção de restauro operada, inteiramente apoiada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, foi feita faseadamente ao longo de 21 meses, possibilitando o destacamento momentâneo dos desenhos e a sua primeira exibição pública pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no seu Museu de São Roque.

Após o encerramento da exposição, será efectuada uma remontagem dos desenhos que permita a sua utilização separadamente.

Que história conta este álbum?

Álbum Weale ou Recueil Weale foi organizado na década de 40 de Setecentos por Manuel Pereira de Sampaio, encarregado de negócios português em Roma e coordenador das encomendas de D. João V com destino à Patriarcal e à Capela Real de São João Batista. Preocupado com os rumores que corriam em Lisboa sobre os gastos em Roma com as encomendas de D. João V, o embaixador Pereira de Sampaio elabora em “tempo recorde” um álbum detalhado com desenhos e informações específicas sobre as encomendas. Com fins estritamente contabilísticos, nele se elencam orçamentos e desenhos das obras a produzir ou já em execução.

Álbum Weale, ou Libro degli Abozzi de Disegni delle Commissioni che si fanno in Roma per Ordine della Corte, constitui-se pois como um elemento fundamental para a compreensão das encomendas joaninas efectuadas no ambiente romano dos anos quarenta do Settecento. E se assume particular relevância no que à Patriarcal diz respeito – uma vez que se trata da quase única fonte visual capaz de viabilizar uma aproximação às obras perdidas – mas é relativamente à obra da capela de S. João Baptista que veicula maior volume de informação. Assim, à obra de arquitectura são consagrados diversos desenhos mas merece também especial atenção a componente ornamental. No Álbum Weale, os desenhos das peças de ourivesaria assumem igualmente um grande protagonismo, sendo graças a estes que podemos ter o único vislumbre do aspecto das peças de ourivesaria desaparecidas do tesouro da capela de São João Baptista e uma ideia de conjunto desta colecção de ourivesaria, única no mundo.

Quem for ver a exposição, o que lá vai encontrar?

O conceito de viagem, presente no próprio álbum, é ideia-chave da exposição De Roma para Lisboa: um álbum para o Rei Magnânimo. Entre Lisboa e Roma circulavam, no século XVIII, palavras, desenhos e obras de arte.

Uma selecção de desenhos do Álbum Weale são o fio condutor e eixo central da exposição que proporciona uma visão parcial da globalidade das encomendas joaninas em grande parte desaparecidas na voragem do terramoto de 1755, destinadas à Basílica do Palácio de Mafra, à Basílica Patriarcal e à Capela de São João Baptista da Igreja de São Roque. Porém esta aproximação às encomendas joaninas tem de ser complementada com a consulta da correspondência trocada entre Lisboa e Roma e ainda da vasta documentação produzida pela embaixada de Portugal em Roma que se conserva na Biblioteca da Ajuda. Assim, trazem-se também ao olhar dos visitantes desta exposição algumas dessas cartas que viajavam entre a Roma e Lisboa complementadas com desenhos de carácter meramente ilustrativo e elucidativo do discurso escrito.

Através de obras de pintura e escultura, mostram-se também os agentes promotores da viagem entre Roma e Lisboa, desde logo o próprio soberano, o cardeal patriarca e os embaixadores de Portugal em Roma, os quais procuravam assegurar a total satisfação das ordens provenientes da capital do reino.

Na tentativa de melhor reconstituir este panorama, proporcionado pela viagem entre Roma e Lisboa, apresentam-se ainda obras provenientes de museus e colecções particulares da autoria dos mesmos artistas presentes neste documento e que nos permitem assim, na sua tridimensionalidade, propiciar como que uma materialização dos desenhos do Álbum Weale, numa mais eficaz aproximação às peças desaparecidas.

Estamos muito habituados a ver a Santa Casa a apoiar causas sociais e menos cultura, o que é, naturalmente uma ideia pouco esclarecida. A Santa Casa também é cultura?

Concretizando os seus fins estatutários, nomeadamente, no respeitante à Cultura e promoção da qualidade de vida, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem-se empenhado ao longo dos anos no desenvolvimento de uma política de salvaguarda e valorização do património cultural e artístico à sua guarda.

Fiel a esta missão, e por deliberação de Mesa de 6 de Junho de 2012, foi criada a Direção da Cultura com os objetivos de promover e coordenar de forma integrada e transversal a ação cultural da SCML, nomeadamente nas áreas de investigação, conservação, incorporação e desenvolvimento cultural e de dignificar e evidenciar o seu património cultural como instrumento do desenvolvimento humano e da coesão social, colocando-o ao serviço e fruição da comunidade.

A Direção da Cultura integra o Museu de São Roque, o Arquivo Histórico, a Biblioteca, o Centro Editorial e o Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural e inscreve-se num contexto mais vasto de desenvolvimento de um polo cultural dinâmico em pleno centro de Lisboa.

No âmbito desta reestruturação, e com intuito de alargar a actividade cultural da SCML, foi criado o Serviço de Públicos e Desenvolvimento Cultural que procura, de forma integrada, dar a conhecer o património com valor histórico e artístico da SCML, através da dinamização de acções de âmbito cultural e educativo nos espaços patrimoniais da instituição.

Que iniciativas mais irá apresentar a Santa Casa enquadradas com a Cultura?

No âmbito desta exposição, a apresentação de um ciclo de conferências temáticas a cargo de especialistas nacionais e internacionais, em Setembro Outubro, nomeadamente Jennifer Montagu ou Peter Fuhring, entre outros.

A apresentação da monografia da Capela de São João Baptista e das suas Colecções, em Outubro. Este livro é um estudo aprofundo sobre a capela e o seu tesouro e traduz o investimento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no projecto global de beneficiação deste monumento joanino, o qual envolveu investigação, restauro e divulgação.

Salienta-se ainda em 2015, no âmbito de parceria com o Museu de Arte Sacra de São Paulo, Brasil, a apresentação da uma exposição “Barro Paulista”, com a apresentação de um conjunto de esculturas em terracota daquele museu brasileiro, iniciativa que permite estreitar os laços culturais com Portugal.

Merece ainda destaque a 27ª Temporada de Música em São Roque, a decorrer este ano entre 17 de Outubro e 6 de Novembro, privilegiando a música de compositores nacionais, muitas vezes esquecidos em arquivos e que conta com a participação do Coro Gulbenkian ou da Orquestra Metropolitana, entre outros.

Está também em preparação, uma candidatura à UNESCO para Registo de Memória do Mundo, de uma série documental do Arquivo Histórico da Santa Casa relativa aos “Sinais dos Expostos”.

Visitas guiadas à exposição:

As visitas guiadas à exposição temporária “De Roma para Lisboa: Um álbum para o Rei Magnânimo”acontecem todos os domingos às 15h e quintas-feiras às 17h30.

26 de Junho a 25 de Outubro de 2015

Galeria de exposições temporárias do Museu de São Roque (acesso pela Igreja de São Roque)

Participação GRATUITA mediante MARCAÇÃO PRÉVIA

213 240 869/866 – 213 235 444