Maestro Filipe Carvalheiro – Diretor artístico da 27ª edição da Temporada Música em São Roque

Filipe Carvalheiro

Arrancou no passado sábado mais uma Temporada de Música de São Roque, naquela que é a 27ªEdição, que se prolonga até ao próximo dia 8 de Novembro. Ao todo, serão 12 concertos de música clássica ou erudita onde a expectativa passa por ter público mais jovem ou que habitualmente não procura este tipo de eventos como revelou o Maestro Filipe Carvalheiro em conversa com a Buzzmedia.

 

O que nos vai trazer a nova Temporada Música em São Roque?

Um conjunto de 12 concertos com uma programação variada que cobre 500 anos de história da música, na qual é privilegiada a presença de música portuguesa interpretada por alguns dos mais destacados intérpretes nacionais ou estabelecidos em Portugal.

 

Quais as expectativas, em termos de adesão, para esta edição? As pessoas cada vez aderem mais a estes eventos, ou ainda se sente algum tipo de elitismo?

Ao longo das 26 edições anteriores o público sempre mostrou interesse em assistir aos concertos da Temporada Música em S. Roque. Este ano esperamos conseguir merecer o mesmo interesse.

A música dita clássica ou erudita, que oferecemos nesta Temporada de concertos, continua em algum grau a ser conotada com elitismo sobretudo junto das gerações mais idosas. As gerações mais jovens parecem no entanto entendê-la como uma parte do total da oferta cultural e de entretenimento e acorrem a estes concertos com a mesma abertura que acorrem a eventos de caráter muito diferente.

 

Do vasto programa, o que destaca como imperdível?

Enquanto diretor artístico da Temporada nunca destacaria qualquer concerto. A Temporada é um todo que pretendemos coerente e orgânico. Cada concerto completa os outros. Parece-me imperdível uma temporada que apresenta um número muito significativo de obras portuguesas, algumas em estreia mundial e outras que nunca foram ouvidas no nosso tempo, por estarem esquecidas em bibliotecas há séculos.

 

Do programa que foi dado a conhecer, destacam-se algumas novidades dedicadas a crianças. É fundamental o envolvimento cultural dos jovens?

O envolvimento cultural dos jovens é decisivo para a sobrevivência de qualquer iniciativa. Para este ano decidimos procurar soluções para atrair aos nossos concertos uma faixa de público que tem estado ausente da oferta cultural em geral; os jovens adultos que, por serem pais de crianças pequenas, se vêm impedidos de assistir aos concertos, sobretudo os que decorrem à noite. A criação dos ateliers paralelos aos concertos, em que as crianças brincarão com temas ligados à música, tem como objetivo oferecer a essa faixa de público uma solução e promover o diálogo familiar em torno da música.

 

Estamos na 27ª Edição. Quais são os segredos para uma longevidade tão grande?

Todos os anos fazemos uma reflexão sobre o que correu bem e o que deve ser melhorado. Creio que temos tido a capacidade de nos adaptar às mudanças de hábitos culturais, às diferentes fases de oferta cultural na cidade de Lisboa e às espectativas que o público tem para uma Temporada com estas características. No entanto, ainda que sempre abertos a essa mudança, nunca abdicámos dos nossos valores essenciais; promover a música e os músicos portugueses, divulgar o património da, ou a cargo da, Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e oferecer ao público uma experiência musical de valor. Creio que o segredo é a genuinidade e a coerência destes valores.

 

Do ponto de vista de divulgação, o que foi feito?

A divulgação da Temporada tem vindo a ganhar maior relevância ao longo dos anos, até pelo número crescente de plataformas que temos hoje para divulgar a iniciativa. Para além das parcerias – que ajudam a dar visibilidade aos concertos e às iniciativas associadas e que abrangem uma vasta lista de pessoas, instituições e associações ligadas à área da música –, há a preocupação de estar nas diferentes plataformas, no sentido de chegar a cada vez mais pessoas, diversificando o público da temporada. Assim, para além da divulgação no site da Santa Casa, e da presença nos meios tradicionais, a Temporada marca presença nas agendas culturais – não só dos media mas também de outros parceiros que estão ligados à iniciativa – e, claro, nas redes sociais com a criação de eventos regulares “convidando” as pessoas a acompanharem a programação. Para além disso, à semelhança dos anos anteriores, a Temporada é sempre divulgada nos vários equipamentos da SCML e, este ano, no exterior com a distribuição do programa em lojas e espaços no centro da cidade para darmos a conhecer a programação também aos turistas. Este ano tivemos mais um meio de divulgação privilegiado para esta iniciativa: a Rádio Santa Casa.

 

Enquanto maestro, o que é que na sua opinião é relevante fazer para trazer mais pessoas para o universo da música clássica? E de que forma esta iniciativa da Santa Casa tem assumido esse papel?

Enquanto diretor artístico desta Temporada de concertos tenho felizmente tido a oportunidade de pôr em prática algumas das iniciativas que entendo serem importantes para atrair público para a música clássica e, como referi anteriormente, essas opções têm dado bons resultados.

Parece-me fundamental que a música clássica chegue às pessoas de forma simples. A essência da música clássica é a ligação ao público. A ligação de quem toca com quem escuta. Isso tornou-se complicado nos últimos 100 anos e o público começou a afastar-se, mas creio que a relação entre músicos e público se está, gradualmente, a descomplicar. Na sua essência a Santa Casa é uma instituição que vai ao encontro das pessoas, de forma simples, para dar. Esse é o espírito da Temporada Música em S. Roque.