Piorar para melhor

Ricardo Miranda

ARTIGO DE OPINIÃO COM: RICARDO MIRANDA –  BRAND VOICE CONCEPT CREATOR BRANDIA CENTRAL

 

Quem lê notícias, lê más notícias. Na generalidade dos murais digitais, o mundo parece irremediavelmente perdido. Aquecimento global. Extinção de espécies. Ecossistemas em rutura. Crise económica. Pobreza endémica. Terrorismo religioso. Holocausto nuclear. Guerras sem fim. Taxistas contra Uber. E, agora, a tragédia dos refugiados.

 

São factos e contra factos não há argumentos, argumenta-se. O que é verdade, mas é também apenas um ponto de vista.

 

Contra factos não há argumentos: há outros factos. Milhares deles.

 

No Quénia, 200 mil casas sem acesso a eletricidade, dispõem agora de energia elétrica proveniente de painéis solares, graças ao sistema inovador M-Kopa.

 

Na China, o construtor automóvel BYD está a lançar autocarros movidos a baterias elétricas, que duram um dia inteiro, para substituir os poluentes autocarros a diesel que tantos problemas de smog têm causado nas principais cidades chinesas.

 

O gigante francês Danone cortou com a indústria do junk food, baixando a concentração de açúcar nos seus iogurtes, aumentando a quantidade de vitaminas, e dedicando-se a melhorar a nutrição das populações nos mercados em que intervém (Brasil, por exemplo).

 

A Jain Irrigation Systems criou sistemas de micro-irrigação que permitem aproveitar melhor a água na Índia rural. As culturas agrícolas aumentaram a produtividade entre 50 e 300% (dependendo das plantas), com ganhos diretos para os agricultores indianos.

 

A Nike, que tanta vergonha trouxe à marca nos anos 1990, quando se descobriu que recorria a trabalho quase-escravo noutros continentes, inverteu a sua conduta e, em 2013, fiscalizou 94% das suas 785 fábricas, descobrindo 16% de más-práticas (contra 29% em 2012).

 

E depois há o histórico Grameen Bank que, graças aos microcréditos revolucionários, emprestou 17 mil milhões de dólares a quase 9 milhões de pessoas (na sua maioria, mulheres), permitindo que 135 milhões de pessoas abandonassem a pobreza extrema. Não é por acaso que Mohammad Yunus ganhou o Prémio Nobel da Paz.

 

São empresas focadas em “fazer bem, fazendo o bem” (“doing well by doing good”). Os cínicos rir-se-ão, mas a geração dos millennials achará normal. Já não é uma excentricidade. Esta forma de pensar e atuar, está a transformar-se numa normalidade. Para muitos dos novos acionistas de empresas, só lucro não chega. A missão corporativa passa por melhorar o negócio, melhorando também a vida das pessoas. Trata-se de uma evolução de mentalidades. Nenhuma destas empresas quer ser a Madre Teresa, mas querem que o retorno do investimento (ROI, Return On Investment, o “quanto é que eu ganho com isso?”) traga retorno para a sociedade.

 

50 exemplos, como os referidos em cima, aparecem na lista “Mudar o mundo” da revista Fortune (ed. europeia, 1 set.), um index criado com o apoio do think tank FSG, com a supervisão do Michael Porter.

 

Mas há muitos mais casos, mencionados noutras fontes.

 

A epidemia do ébola foi contida na Nigéria, graças a um programa pré-instalado de formação dos profissionais de saúde nacionais. Na Etiópia, terra das grandes fomes que indignaram o Ocidente nos anos 1980 e motivaram o Live Aid, as populações estão a viver melhor, apesar da presença dos senhores da guerra. Não se compara à qualidade de vida (comparativamente) premium que a maioria dos ocidentais desfruta, mas é uma melhoria. O número de pessoas a viver em situação de pobreza extrema caiu 50% desde 1990, diz a BBC News. Cuba e Estados Unidos fizeram as pazes, após 6 décadas de atrito. O Irão e a comunidade internacional enterraram o machado da desconfiança e vão permitir à fulgurante juventude iraniana abraçar o mundo.

 

Tudo isto não são grandes passos para a Humanidade. São pequenos passos. Milhares e milhares de pequenos passos na direção certa. Milhares e milhares de pequenos factos que nem sempre viram notícias, mas constroem as bases de um futuro comum promissor.

 

Hans Rosling, criador da Gapminder, fundação que inventou o software Trendalyzer, é um fervoroso crítico do ceticismo dominante. A curta entrevista que se segue é um touché:

https://www.facebook.com/gapminder.org/videos/1060574540644170/?pnref=story

 

Não se confunda a perceção de que o mundo está a ficar pior, com o facto de estar efetivamente a ficar pior. Não está. Só que vivemos na era do facetime e o mal tem muito mais tempo de antena do que o bem. Percebe-se porquê. O mal mata. O mal exige mais de nós. Mais atenção, mais tempo, mais recursos. Com o bem está-se bem. O mal exige tudo de nós. Revolta-nos, provoca-nos. O mal é mais sexy.

 

Exemplo pessoal: gosto de filmes de terror. Pelo que acompanho os filmes de terror que vão sendo produzidos pelo mundo fora, via net. Isto não significa, necessariamente, que haja mais filmes de terror no cinema. Significa apenas que lhes ofereço mais espaço mental. Só isso.

 

Nunca no decurso da nossa História, a vida foi tão boa para os seres humanos, enquanto espécie, como agora. Claro que está muito má para muita gente. Basta perguntar aos refugiados na fronteira húngara. Mas o mundo sempre esteve muito mal para muitos de nós. Nunca foi bom para todos. Nenhum de nós consegue viver noutro século, para sentirmos na pele o que é viver num mundo pior, à séria. Somos parciais. Mas podemos comparar. Edward Gibbon, reputado historiador inglês, escrevia no fim do século 18 que o período de ouro da Humanidade, em termos de qualidade de vida, fora entre 95 e 180 DC, com os “5 good emperors”. Mas se pudéssemos dar um salto a essa época e fossemos ao hospital, levávamos um susto. O século 20 foi o século maravilha. Teve genocídios, duas guerras mundiais, mas nunca se viveu tão bem. No século 21, levantámos ainda mais a fasquia. Não suportamos que haja pessoas a viver mal. Ainda bem. Mas o facto de haver pessoas a viver mal, não é a prova de que está tudo mal.

 

A conversa do “estamos perdidos” devia ter-se perdido algures entre a invenção da vacina contra o tétano e os antibióticos, mas manteve-se. A conversa da desesperança é exasperante. Porque é mentira. Porque é sentimental. Porque não é factual. E porque leva a que algumas pessoas baixem os braços e acreditem que não vale a pena. E algumas pessoas são o suficiente para melhorar algumas das milhares de causas que precisam de apoio.