Identidade extremista

Ricardo Miranda

ARTIGO DE OPINIÃO COM: RICARDO MIRANDA –  BRAND VOICE CONCEPT CREATOR BRANDIA CENTRAL

 
Identidade é um tema pouco sexy. Parece saído do ficheiro onde se guardam palavras chatas como confiança, inovação, humanização, paixão, credibilidade ou intangível. Todas elas palavras aparentemente gastas, muito usadas em apresentações de marca para descrever os valores das marcas. Palavras tipicamente recebidas com curiosidade e bocejos. É talvez estranho, portanto, que eu dedique dois artigos seguidos ao mesmo tema. O primeiro que funcionou como entrada. Este segundo a tentar fazer de prato principal. (Duvido que haja sobremesa nesta analogia.)
 
O tema parece pouco sexy, mas quando falamos em identidade para tentar perceber os extremistas – a palavra deste fim de ano –, as pessoas sentem uma picada e deixam de bocejar.
 
A identidade é um tópico estranho. Toda a gente é suposto ter uma, mas depois não é bem isso que acontece na prática.
 
Uma vez conheci um criativo de quarenta e poucos anos que, quando lhe perguntei por onde tinha andado antes de chegar à agência onde se encontrava há 4 anos, respondeu que tudo o que tinha feito até chegar a ela era irrelevante. Só aquela agência importava. Nela tinha renascido. Criativos costumam ser seres piadéticos, mas este era um criativo sério que falava a sério. Para ele, tudo o que tinha pensado, tudo o que tinha feito, as ideias que tinha tido, as pessoas que tinha conhecido, as experiências por que tinha passado, tinham deixado de fazer sentido (ou só tinham passado a fazer sentido) a partir do momento em que entrara na nova agência. Eram a pré-História da sua história. A identidade em que se reconhecia enquanto pessoa, era assim algo recente, formada há 4 anos. Até entrar na agência, ele era uma coisa. Depois de lá entrar, passou a sentir-se outra. A experiência alterou a sua identidade. Powerful stuff, portanto.
 
Esta é uma experiência que se pode qualificar de religiosa.
 
Hoje em dia não é suposto citar-se a Bíblia, mas no Novo Testamento um homem chamado Saulo teve uma experiência extrema a caminho de Damasco e de perseguidor de um culto judeu, que venerava um agitador chamado Jesus (nada a ver com o Sporting), tornou-se o seu principal seguidor. Tão seguidor que pegou naquela micro-seita e a reposicionou como a religião dos escravos e das mulheres de um Império Romano cansado de se identificar com deuses corruptos e pançudos.
 
Saulo mudou o nome para Paulo e conhecemo-lo hoje como São Paulo. Mas não foi só a sua identidade individual que mudou. Mudou também a identidade coletiva do culto transformando-o numa religião para desfavorecidos. É por isso que São Paulo é conhecido, por muitos, como o pai do Cristianismo. Adaptou a sua experiência individual profunda a milhões de pessoas que passaram a identificar-se com ela. Graças a ele, qualquer pessoa passou a poder ser cristã, mesmo que não fosse judia. Bastava acreditar. A identidade coletiva da religião separava-se da identidade geográfica dos fundadores – Jesus e seus apóstolos – e passava a poder integrar novos membros. Powerful stuff indeed.
 
Duzentos anos depois, a religião nascida deste culto inexpressivo de uma periferia obscura do Império Romano, tornar-se-ia na sua religião oficial. Milhões de identidades individuais passavam agora a rever-se numa identidade coletiva e a ter um propósito comum. 
 
Identidade é esta coisa que faz com que nós sejamos nós. Isto de se ser é suposto ser fácil, mas, estranhamente, não é. É um processo evolutivo. E algures, ao longo deste processo, é suposto descobrirmos quem somos. Quando isso acontece, a procura termina e, teoricamente, já podemos simplesmente ser.
 
Mas o complicado na identidade é que ela não cristaliza. Não tem botão de pausa. Continua em ‘play’. Quando alguém que procura ser alguma coisa, finalmente descobre o que é, por muito que queira tirar uma selfie e dizer “obrigado mundo, agora podes parar”, o mundo continua a girar e a trocar-lhe as voltas. A sua identidade deixa de ser uma procura e passa a ser uma defesa.
 
Os comentários racistas de Donald Trump, relativamente aos mexicanos, têm a sua raiz na defesa da identidade da cultura branca americana. Um dos medos de parte da população branca americana é que dentro de uma década passem a ser uma minoria no seu próprio país. A sensação de perda de identidade rapidamente se transforma em ódio.
 
Os extremistas islâmicos abdicam da identidade que tinham para poderem renascer. E para se sentirem bem na sua nova pele, tentam destruir a antiga. Para que não corra o risco de voltar. Abraçaram as partículas de uma nova essência, mas, no fundo, são incapazes de lidar com a mudança. Querem ser o que se tornaram… para sempre. Mas suspeitam que se mudaram, podem mudar de novo. Acreditam que o processo de sedimentação do seu novo eu é acentuado se destruírem o habitat onde o antigo eu proliferava. Os atentados encarregam-se disso. Talvez por isso muitos dos seus executores fossem franceses. Ironicamente, são pessoas que se empenharam a fundo na construção de uma nova identidade, mas que, quando, finalmente, são o que quiseram ser, colocam um colete de explosivos e deixam, pura e simplesmente, de ser.