O fim do Centauro

Ricardo Miranda

ARTIGO DE OPINIÃO COM: RICARDO MIRANDA –  BRAND VOICE CONCEPT CREATOR BRANDIA CENTRAL

 

O tema é o fim do Banif. Mas este é um outro ponto de vista. O de alguém que trabalha em marcas. E que, mais concretamente, trabalhou esta marca. Pelo que é, sem ambiguidades, um ponto de vista parcial.

O Banif tem levado pancada de todos os lados. Não há quem o defenda. É difícil falar sobre este banco sem pensar nos números devastadores que os jornais dizem que os contribuintes vão ter de pagar. Rapidamente as redes sociais se encheram de naturais indignações em centenas de perfis. Desta vez não eram apenas ‘haters’, nem a brigada ressabiada. Eram cidadãos comuns. Com razões legítimas para se sentirem indignados com a queda de mais um banco.

Mas o facto de haver fundamento real para essa indignação, não significa que esse seja o único ângulo que interessa observar sobre o Banif. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie alertava-nos para o perigo de uma “história única”, numa Ted Talk de 2009. Não se trata de ouvir os dois lados de uma disputa. Trata-se de ouvir outros pontos de vista.

A história do Banif é uma história que acaba mal. Mas não é por acabar mal, que é uma má história ou sequer uma história feita por “maus”. Nem é por acabar mal que o Banif foi uma má marca ou um mau banco. Todos os fins são, por definição, maus, exceto no cinema. A morte é uma app impossível de desinstalar e acaba sempre por chegar. A maior parte das vezes deixando heranças difíceis.

O Banif nasceu em 1988, filho da extinta Caixa Económica do Funchal. Crescer foi duro e difícil. Emprestou aqui, emprestou ali e, de empréstimo em empréstimo, lá foi ganhando volume. Quando deu por si, era um banco de grande porte em pleno século XXI. Grande demais para passar entre as gotas da chuva sem se dar por ele. Decidiu, então, que precisava de trabalhar a sua marca.

Nenhuma pessoa, seja individual (eu e o leitor) ou coletiva (bancos, empresas), pode existir sem influenciar a perceção que os outros têm sobre si. Somos seres sociais. Sabemos que se não tivermos uma palavra a dizer sobre o que os outros pensam de nós, temos menos hipóteses de sobreviver.

É aqui que as marcas entram em cena. Personalizam a perceção. Criam uma identidade na cabeça dos outros sobre nós. É a partir dessa identidade que se relacionam com clientes, colaboradores, portugueses em geral. Pelo que nenhuma organização pode passar sem marca. Perderia o controlo sobre o que dizem dela.

No caso do Banif, a procura da sua alma levou-o à “força de acreditar”. Estávamos em 2007 e o banco queria assinalar a chegada à maturidade, que duas décadas de existência lhe davam, com uma nova imagem. Dezenas de entrevistas a colaboradores do Banif haviam resumido a essência do banco a um pensamento, muitas vezes repetido pelos mais antigos, “o nosso

crescimento foi muito duro, cheio de incertezas e ansiedades, mas, agora, quando olhamos para trás, sentimos que valeu a pena acreditar”.

No Banif, acreditar não era apenas uma fé, era uma força, uma fé que move montanhas. Ficou “A Força de Acreditar” – assinatura da marca que se manteve de janeiro de 2008, data de lançamento do rebranding, até ao fim, em dezembro de 2015.

Quando se acredita para além do que é razoável, entra-se em território mítico. O Banif sentia que a sua luta havia sido maior do que a vida. Assim nasceu o seu símbolo. O centauro era a concretização desta fé musculada. Uma celebração da natureza que aliava a força e rapidez do cavalo à inteligência e determinação do ser humano.

A marca era, assim, a materialização bancária daquilo que se pode chamar de vontade indómita. Esta era a sua diferença. O Banif era o banco dos portugueses que tinham feito um percurso de dificuldades e se haviam saído bem. Muito diferente de uma Caixa, um BES, um BPI ou um Millennium. Talvez por isso tivesse acompanhado a rota da emigração, estando presente em países onde a diáspora portuguesa é particularmente forte, como a Venezuela ou a África do Sul.

É claro que se pode dizer que tudo isto é um disparate, uma perfeita parvoíce, um conto de fadas que não devia ter saído do papel. Banco que é banco trata de números e o resto é conversa.

Talvez – mas quem trabalha com empresas sabe que todas elas têm uma história humana por trás, feita de sangue, suor e lágrimas. Escrita a meias pelos fundadores e colaboradores. Histórias épicas, profundamente sentidas por quem lá trabalha. Narrativas que moldam os seus negócios e os seus percursos. Sente-se à conversa com o dono de uma empresa a propósito dessa empresa e prepare-se para uma tarde bem passada. São histórias mil vezes mais interessantes do que Relatórios e Contas, porque são as narrativas que as pessoas contam umas às outras e que são únicas. Esse é o seu lado humano. A sua cultura de empresa. Aquilo que verdadeiramente faz delas o que são. Ninguém gosta de trabalhar apenas “entre 4 paredes”. Ver um banco como um amontoado de números é ver pouco.

Era ótimo que essas empresas vivessem produtivas para sempre, mas não é possível. E o final das empresas, sejam bancos, agências ou outras organizações, é invariavelmente uma história de declínio, queda e morte abrupta, replicando a nossa própria história biológica.

É fácil falar do “despertar da força” a propósito do Star Wars, uma história que também é um negócio multi-milionário, apesar de ter andado pelas ruas “estelares” da amargura, depois de 3 filmes insonsos, mas já parece difícil falar do “despertar da força” a propósito de uma organização. No entanto, todos os mundos de fantasia, seja na indústria do entretenimento ou no mundo corporativo, são criados para nos dar um propósito. São narrativas

criadoras de filosofias de vida. Dão-nos pontos de vista sobre o “tudo” que podemos abraçar, rejeitar, modificar, mas dificilmente podemos ignorar.

Os graus de complexidade narrativa entre um Star Wars e um banco são radicalmente diferentes, mas a vontade que lhes dá origem é idêntica.

O Banif deu corpo narrativo a uma população de portugueses vindos da luta, que trabalharam para chegar lá acima e tiveram sucesso.

Foi servido por profissionais espantosos que passaram por esta instituição e a marcaram, melhoraram, dignificaram e agora veem uma das grandes viagens das suas vidas chegar à última paragem. Não é fácil trabalhar numa empresa tão questionada e fustigada, mas quando se aprende a dar o nosso melhor nas piores condições fica a certeza de que existe um novo futuro à nossa espera – “stormy seas make the best sailors”.

O Banif esteve muito perto de iniciar uma nova narrativa, mais focada em autenticidade, na necessidade de se evoluir e nas lições de vida que se extraem quando se passa por dificuldades, algo de que poucas marcas em Portugal falam, mas caiu antes disso acontecer. A história do que podia ter acontecido fica agora para os mundos ficcionados do “what if”. O que sabemos é que a cortina caiu, os créditos finais subiram e o Banif se foi.

Adeus, banco do centauro, vou continuar a ter força de acreditar, mesmo se agora sem ti.